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terça-feira, 11 de setembro de 2012

A noite na Off-Broadway paulistana


Godspell, o famoso musical da Broadway de Stephen Schwartz (o mesmo de Wicked) que abriu pela terceira vez no Brasil, mostra passagens do Evangelho segundo Mateus com mensagens filosóficas de amor para os dias de hoje. O musical está sendo apresentado no minúsculo Teatro Commune com preços bem satisfatórios.

Ao assistir Godspell, tive a sensação de estar indo a assistir uma produção teatral obscura em algum teatro da Off-Off-Broadway. Ao entrar na sala de espetáculo o sentimento é maior ainda, os atores já estão todos no palco e dentro de seus personagens interagindo entre eles até todos tomarem os pouquíssimos lugares do teatro. Falando assim soa negativo, mas não vem ao caso dessa montagem. Acertaram na mosca ao escolherem o Teatro Commune para reviver a bela obra. O musical está na minha lista de 10 favoritos de todos os tempos e sempre achei que para ser bom teria que ser em um teatro pequeno e uma produção de baixo custo. Estava certo, a experiência de ver o musical dessa forma foi uma experiência única.

A produção da talentosa Janaína Lince, que também é atriz na peça, está totalmente despreocupada em ser uma mega produção. Não há efeitos especiais. A iluminação, cenário e figurinos são simples lembrando uma produção escolar. Por outro lado, todos esbanjam profissionalidade que falta em algumas grandes produções. A escolha do elenco foi feita com cuidado, reúne nomes desconhecidos com outros já vistos em produções paulistanas. Os atores dão um brilho especial a cada cena musical e a cada esquete apresentadas, as vozes surpreendem juntamente com a interpretação e o timing cômico. As músicas que são os pontos altos de Godspell se exaltam mesmo com apenas quatro músicos no palco, a beleza da obra original transparece com toda a força em cada canto do teatro. A nova tradução também está lindíssima e não deixou a desejar em nenhuma parte. O texto atualizado com várias referências atuais, brasileiras e paulistanas deram a peça o toque de comédia necessário e que me fez rir em partes inesperadas. Resumindo: satisfação total e vontade de poder assistir todas às vezes.

Talvez a única pequena falha que achei foi com minha cena favorita e o ápice do musical, a cena da crucificação de Cristo. Não consegui entender o que o diretor quis passar com a encenação da maioria dos atores, sendo melhor ter deixado a tradicional encenação, talvez uma melhor iluminação do momento já tivesse deixado a cena muito mais bonita. 


Video do site Cena Musical

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A noite mais gay no deserto da Austrália



As luzes diminuem, a abertura começa ser tocada pela a orquestra e o teatro brilha como se tivéssemos cercados por milhares de estrelas. As três divas aparecem suspensas ao som de It’s Raining Men e a euforia da plateia aumenta instantaneamente. Em um momento como esse, como evitar a vontade de levantar e dançar junto com a música? É assim que começa uma das noites mais coloridas e divertidas que alguém poderia ter em um teatro.

O musical Priscilla – Rainha do Deserto conta a história Bernadette, Mizti e Adam, duas drag queens e uma transexual, que a bordo do ônibus Priscilla percorrem através do deserto australiano para fazer um show em Alice Springs. A versão brasileira que é idêntica ao que é apresentado na Broadway, chega com as músicas sem versões em português, salvo alguns trechos, mantendo o original em inglês.  

Apesar de não ter tido oportunidade de assistir pessoalmente a montagem de Londres e nem da Broadway, a não ser através de bootlegs (cof... cof...), comparações são inevitáveis. Menos no caso de Priscilla! Mesmo com a insatisfação de a montagem brasileira ser réplica da Broadway e não com a de Londres, a peça não deixou a desejar em nenhum segundo. O meu nariz torcido com a produção americana foi pelo fato das músicas terem sido alteradas para a cultura dos Estados Unidos, deixando para trás a forma original que o musical foi concebido e também ignorando grandes canções como Venus do Bananarama e Downtown da Petula Clark. A decisão de deixarem a maior parte das músicas em inglês foi interessante e inteligente, já que não seria nada agradável escutar I Will Survive ou It’s Raining Men em português. Mesmo assim, acredito que partes de algumas músicas poderiam ter sido traduzidas, assim como foi feito no início de “Say A Little Prayer”. Ajudaria no entendimento da história para outros que não entendem inglês. Porém, é um pequeno detalhe que não faz tanta diferença.

Leandro Luna - Surpresa da noite,
mostrando toda sua versatilidade.
(Foto: Caio Gallucci/Divulgação)  
Tudo é esteticamente perfeito. Os atores encarnam tão bem os papéis que conseguem nos carregar o público facilmente através da história. Os protagonistas Ruben Gabira, André Torquato e Luciano Andrey estão impecáveis e levam o texto de forma escrachada o que garante uma risada atrás de outra. As divas Simone Guitierriez, Priscilla Borges e Lívia Graciano dão um show a parte, ainda mais quando estão suspensas no palco. Leandro Luna como Miss Segura está hilário e tem o trabalho dobrado, constantemente está no palco e sempre com uma faceta diferente e faz lindamente a versão drag de Tina Tuner no início da peça. Andrezza Massei que já levava a plateia à gargalhada no Mamma Mia! continua fazendo o mesmo em Priscilla no papel da Shirley. Como a própria atriz descreveu: uma palhaçada atrás de outra. Saulo Vasconcelos apesar de aparecer no final do primeiro ato e cantar apenas uma música, é de grande valia para o elenco de peso e impagável vestido de canguru no grand finale. E falando do final, após o magnífico medley, que é uma das partes mais emocionantes onde todo o elenco está reunido no palco. Ainda temos especialmente na produção do Brasil a música Dancin’ Days d’As Frenéticas, cantada por todo elenco. É a cereja no topo do bolo. Nada melhor para finalizar do que o hino da disco music brasileira.

Quem deseja algum dia assistir um espetáculo digno de Broadway, não precisa ir muito longe. Tudo está ali no Teatro Bradesco. Talvez o ponto fraco desse musical seja a duração comparada com musicais longuíssimos mais tradicionais. Mesmo assim, são 2 horas e 15 minutos de pura diversão.